domingo, 14 de outubro de 2012

De hoje para amanhã

Nós dois, sentados num banco, Lagoa, Rio de Janeiro. Quietos, entre olhares de soslaio e expressões de canto de boca. Final de tarde com um arrebol de cegar-nos em beleza e fascínio. Ao chegarem-me as palavras, comecei a narrar as minhas paixões, as minhas mais bonitas crenças, os meus planos para daqui a dez anos. Ali, na tua companhia, perto do teu cheiro e da tua rara e serena voz. Ali, onde, num forte pulsar de inspiração, pus-me a descrever o sentimento de hoje que fica sempre para amanhã:

- De mais a mais, o meu amor não tem urgências. Ele é feito de fragmentos, de epílogos, de singularidades, com risos soltos e ímpares, dores de peito abarrotado e vontades intermináveis de se fazer transitivo quando junto. Ele é feito de esperas, de guarnições, de passatempos que se apuram por milênios e milênios até chegarem no ponto certo de se consumir. Ele é sem pressa, senhor de todas as horas, feito poema curto e incógnito, em que se lê e relê à falta de afobação e ao excesso de serenidade. E como fruto de toda paciência, molda-se numa exigência peculiar das coisas submersas: conforma-se como líquido à forma em que é posto, sem perder a consistência de um sólido que impõe sua existência à essência de sua constituição. Conjetura o futuro a partir dos vestígios que colhe. Constrói-se lentamente, à medida que se deixa acontecer. Firme, ingênuo e inconsciente. Até chegar à maturidade, em que se faz silente, à beira de tudo o que é pele e sangue e carne e coração. Calado, guarda-se em si pelo instante que julgar condizente, à espera de um dia em que se revigore e saia da armadura, do fundo do armário, da posta que sempre resta à margem das lágrimas de toda espécie. E num eloquente passar de eras, não se deixa decifrar, entre mentiras e retratos, fazendo eco pelas passagens de sabedoria, pelos desvãos das almas poéticas, pelos escaninhos de cartas de palavras antigas. O meu amor é mais ou menos assim: vem, fica, vai e domina o tempo, se faz inteiro quando vivo e se permite, com todas as caras que possui, se diz dele e nada além. E agora, aqui, ele significa o quiçá dos futuros amantes que poderemos ser.

Apertei, então, a tua mão e pensei: ainda bem que nada é pra já.
 
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Canção: Futuros amantes, Chico Buarque
Letra:
Não se afobe, não
Que nada é pra já
O amor não tem pressa
Ele pode esperar em silêncio
Num fundo de armário
Na posta-restante
Milênios, milênios
No ar

E quem sabe, então
O Rio será
Alguma cidade submersa
Os escafandristas virão
Explorar sua casa
Seu quarto, suas coisas
Sua alma, desvãos

Sábios em vão
Tentarão decifrar
O eco de antigas palavras
Fragmentos de cartas, poemas
Mentiras, retratos
Vestígios de estranha civilização

Não se afobe, não
Que nada é pra já
Amores serão sempre amáveis
Futuros amantes, quiçá
Se amarão sem saber
Com o amor que eu um dia
Deixei pra você