Um minuto de intensidade. O coração acelera, bate forte, pulsa frenético e parece não mais caber cá, em meu peito. Ao arrepio da razão, um pensamento de como e quando e onde estaria a felicidade guardada e usada pela aflição do que e de quem me faz bem. O movimento que não cessa, um ato, um verso, uma fotografia e tudo em desatino, alojado em mim como combustível para o extermínio da opacidade. À peculiaridade de cada parte, de cada víscera, o corpo inteiro responde, numa folia doentia, precoce e resoluta para a qual inexiste remédio. A pele enrubesce, feito flor menina, que brota e vive para encantar os olhos de quem se enclausura à mercê de um perturbado sono. Num processo de alquimia, tudo roga por cor e ação, na junção dessas palavras que chegam até ele pelo próprio escárnio dos quebrantos de que se rege ao reverso. À revelia de todos os unguentos, confesso, pelo que me resta, não saber viver sem essa vibração, sem essa energia, sem esse calor que me sufoca e me faz rodopiar no tempo, declamando coisas que já não têm qualquer jeito de dissimular. Ontem, hoje e amanhã, fundidos num só instante, sob desacato, a serviço da desordem do sentimento que vaga leveza e conclama agonia, em tudo me perecendo, em tudo me devastando, em tudo me suplicando, a me atraiçoar. Essas coisas sem nome, de que tanto gosto, esses ditos sem cansaço, de que tanto faço uso, perfilam-se sem sincronia para dizer do azul de que são formadas as paredes do meu instinto de mendigo, artista e amante amador. Tudo, tudo, tudo em seu perfeito papel de não se encaixar num conceito, numa medida, numa receita ou num limite qualquer. O que queima, arde e violenta. O que se perde, se encontra e se perfaz. O que desgoverna, desinibe e não cansa. O que não alivia, não sacia e não fenece. O que foi, é e será: sem certeza, sem sentido e sem juízo.
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Canção: O que será (à flor da pele), Chico Buarque
Letra:
O que será que me dáQue me bole por dentro, será que me dá
Que brota à flor da pele, será que me dá
E que me sobe às faces e me faz corar
E que me salta aos olhos a me atraiçoar
E que me aperta o peito e me faz confessar
O que não tem mais jeito de dissimular
E que nem é direito ninguém recusar
E que me faz mendigo, me faz implorar
O que não tem medida, nem nunca terá
O que não tem remédio, nem nunca terá
O que não tem receita
O que será que será
Que dá dentro da gente e que não devia
Que desacata a gente, que é revelia
Que é feito uma aguardente que não sacia
Que é feito estar doente de uma folia
Que nem dez mandamentos vão conciliar
Nem todos os ungüentos vão aliviar
Nem todos os quebrantos, toda alquimia
Que nem todos os santos, será que será
O que não tem descanso, nem nunca terá
O que não tem cansaço, nem nunca terá
O que não tem limite
O que será que me dá
Que me queima por dentro, será que me dá
Que me perturba o sono, será que me dá
Que todos os ardores me vêm atiçar
Que todos os tremores me vêm agitar
E todos os suores me vêm encharcar
E todos os meus nervos estão a rogar
E todos os meus órgãos estão a clamar
E uma aflição medonha me faz suplicar
O que não tem vergonha, nem nunca terá
O que não tem governo, nem nunca terá
O que não tem juízo