Há coisas sem nome que ficam aqui dentro do quarto e se perpetuam pelas paredes, pelos objetos, pelo chão, pelo ar que aqui ainda parece existir. Na clausura das lembranças, esforço-me para rememorar os nomes daquelas coisas bonitas e tristes que passavam por cá noutros tempos. Escritas, grafadas e amalgamadas como se perpétuas fossem. A ideia de tempo aparenta-se vazia, tão quanto o próprio tempo e sua contagem sem fim. Com ele, passam a exsurgir os questionamentos da existência e do sentido daquelas coisas, para mim agora inominadas, mas ainda especiais e providas de sentido. Assim, como qualquer primavera. Coisas e coisas e coisas. Palavras e palavras e palavras. Ditas e não ditas. Que fogem, somem e me reencontram, mas que logo novamente se vão e se esvaem como a fumaça do cigarro que trago taciturnamente. Há pouco, detinha-me num pedaço de papel insanamente, ébrio de paixão pelos vícios que deixei na mesa da sala, na mesa de bar. Eram versos perdidos, soltos, abandonados. Besteiras a me enganar. E não há tortura maior do que escrever um texto órfão. Igual a acometer-se no calor do desejo e dele não fruir, queimando-se até que tudo não passe de um sonho. Covardemente, atribuo a culpa do hiato à falta de memória, do efêmero léxico que me separa do eterno e profundo amor às coisas sem nome. Penso que, de vil maneira, o tempo ludibria os pensamentos, a protrair as palavras ritmadas e cúmplices, de modo a deixá-las confusas e cheias de nada. Atônitas pelo regresso. E como hei de escrever o que pede para nascer em forma de palavra? Como evadir-me daqui, deste quarto trancado e asfixiante, senão com cicatrizes nas trêmulas mãos? Cairei no esquecimento dos amantes desesperados, clamando humildemente por mais vida e mais coisas sem nome. Morrerei neste sofrimento, nesta súplica, com a ansiedade de quem vive a procurar estrelas uniformes nas brancas paredes. Manterei os olhos abertos, para quando acordar, lembrar-me de cada palavra deste delírio arrependido. Esperando-a, ainda, de novo e sempre. Haja o que houver. Ela há de voltar.
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Canção: Palavra de mulher, Chico Buarque
Letra:
Vou voltar
Haja o que houver, eu vou voltar
Já te deixei jurando nunca mais olhar pra trás
Palavra de mulher, eu vou voltar
Posso até
Sair de bar em bar, falar besteira
E me enganar
Com qualquer um deitar
A noite inteira
Eu vou te amar
Vou chegar
A qualquer hora ao meu lugar
E se uma outra pretendia um dia te roubar
Dispensa essa vadia
Eu vou voltar
Vou subir
A nossa escada, a escada, a escada, a escada
Meu amor, eu vou partir
De novo e sempre, feito viciada
Eu vou voltar
Pode ser
Que a nossa história
Seja mais uma quimera
E pode o nosso teto, a Lapa, o Rio desabar
Pode ser
Que passe o nosso tempo
Como qualquer primavera
Espera
Me espera
Eu vou voltar
Vou voltar
Haja o que houver, eu vou voltar
Já te deixei jurando nunca mais olhar pra trás
Palavra de mulher, eu vou voltar
Posso até
Sair de bar em bar, falar besteira
E me enganar
Com qualquer um deitar
A noite inteira
Eu vou te amar
Vou chegar
A qualquer hora ao meu lugar
E se uma outra pretendia um dia te roubar
Dispensa essa vadia
Eu vou voltar
Vou subir
A nossa escada, a escada, a escada, a escada
Meu amor, eu vou partir
De novo e sempre, feito viciada
Eu vou voltar
Pode ser
Que a nossa história
Seja mais uma quimera
E pode o nosso teto, a Lapa, o Rio desabar
Pode ser
Que passe o nosso tempo
Como qualquer primavera
Espera
Me espera
Eu vou voltar