quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

A ilusão de Carolina

Atirou-se por inteira, sob o palpitar brusco do seu peito, no regozijo da crença de que dispunha de uma nova tela, sobre a qual as tonalidades daquela antiga aquarela voltariam a vibrar. Esboçou alguns traços suaves em torno do branco que ganhava, sorrateiramente, o colorido de sua imaginação e armou-se toda em poesia, rimando as vestes e os cheiros em volta de si, como num jardim bem cuidado. Aceitou a vaidade sob o fundamento da espera, sob a ansiedade da expectativa, sob a vontade de segurança diante do que ainda era incerto. Suspirava com os sinais, mínimos que fossem, de palavras bonitas, de piadas sem graça, de promessas insensatas. Embalou-se, então, em prognósticos, distanciando o seu olhar em qualquer horizonte, sedenta por concretizar os seus sonhos prosaicos. As suas expedições desbravadas resumiam-se às quentes tardes, em que se sentava ao chão e se punha a bordar desenhos infantis em sua pele, chegando a arranhar-se, a criar marcas em seu próprio corpo, tamanha era a intensidade dos seus anseios. E já não se alimentava como antes, o seu apetite era apenas de sentimento. Não importava a poeira acumulada nos cantos, o vento forte que derrubava o jarro de flores, o gato de estimação que morria de fome. Tudo em volta era só verso, numa materialidade intocável. E naquele tempo de esperas e inércia, findou por encontrar a solidão, tão quase sinônima da ilusão. Não havia, pois, mais lugar para ela. Esquecera de si, naquela dança estranha que protagonizava num salão escuro, sem plateia, sem paredes, sem chão. Sentiu-se perdida, mas sem forças para querer fazer o caminho de volta. Seguia como um pássaro preso, sem acaso, em seu abstrato coração. Em seu valor, sem mais razões, recolhera-se ao seu mundo. Cegou-se em si pelo egoísmo, pela irretocável frustração. E teimosa que só ela, mesmo prostrada à janela, nada viu: nem a rosa que nasceu, nem o mundo que sambou, nem a estrela que caiu.
 
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Canção: Carolina, Chico Buarque
Letra:
Carolina
Nos seus olhos fundos
Guarda tanta dor
A dor de todo esse mundo
Eu já lhe expliquei que não vai dar

Seu pranto não vai nada ajudar
Eu já convidei para dançar

É hora, já sei, de aproveitar
Lá fora, amor,
Uma rosa nasceu,
Todo mundo sambou,
Uma estrela caiu
Eu bem que mostrei sorrindo

Pela janela, ói que lindo
Mas Carolina não viu

Carolina,
Nos seus olhos tristes
Guarda tanto amor
O amor que já não existe,
Eu bem que avisei,
vai acabar
De tudo lhe dei para aceitar
Mil versos cantei pra lhe agradar

Agora não sei como explicar
Lá fora, amor
Uma rosa morreu
Uma festa acabou
Nosso barco partiu
Eu bem que mostrei a ela

O tempo passou na janela
Só Carolina não viu

domingo, 18 de novembro de 2012

O que não tem tamanho


Um minuto de intensidade. O coração acelera, bate forte, pulsa frenético e parece não mais caber cá, em meu peito. Ao arrepio da razão, um pensamento de como e quando e onde estaria a felicidade guardada e usada pela aflição do que e de quem me faz bem. O movimento que não cessa, um ato, um verso, uma fotografia e tudo em desatino, alojado em mim como combustível para o extermínio da opacidade. À peculiaridade de cada parte, de cada víscera, o corpo inteiro responde, numa folia doentia, precoce e resoluta para a qual inexiste remédio. A pele enrubesce, feito flor menina, que brota e vive para encantar os olhos de quem se enclausura à mercê de um perturbado sono. Num processo de alquimia, tudo roga por cor e ação, na junção dessas palavras que chegam até ele pelo próprio escárnio dos quebrantos de que se rege ao reverso. À revelia de todos os unguentos, confesso, pelo que me resta, não saber viver sem essa vibração, sem essa energia, sem esse calor que me sufoca e me faz rodopiar no tempo, declamando coisas que já não têm qualquer jeito de dissimular. Ontem, hoje e amanhã, fundidos num só instante, sob desacato, a serviço da desordem do sentimento que vaga leveza e conclama agonia, em tudo me perecendo, em tudo me devastando, em tudo me suplicando, a me atraiçoar. Essas coisas sem nome, de que tanto gosto, esses ditos sem cansaço, de que tanto faço uso, perfilam-se sem sincronia para dizer do azul de que são formadas as paredes do meu instinto de mendigo, artista e amante amador. Tudo, tudo, tudo em seu perfeito papel de não se encaixar num conceito, numa medida, numa receita ou num limite qualquer. O que queima, arde e violenta. O que se perde, se encontra e se perfaz. O que desgoverna, desinibe e não cansa. O que não alivia, não sacia e não fenece. O que foi, é e será: sem certeza, sem sentido e sem juízo.
 
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Canção: O que será (à flor da pele), Chico Buarque
Letra:
O que será que me dá
Que me bole por dentro, será que me dá
Que brota à flor da pele, será que me dá
E que me sobe às faces e me faz corar
E que me salta aos olhos a me atraiçoar
E que me aperta o peito e me faz confessar
O que não tem mais jeito de dissimular
E que nem é direito ninguém recusar
E que me faz mendigo, me faz implorar
O que não tem medida, nem nunca terá
O que não tem remédio, nem nunca terá
O que não tem receita

O que será que será
Que dá dentro da gente e que não devia
Que desacata a gente, que é revelia
Que é feito uma aguardente que não sacia
Que é feito estar doente de uma folia
Que nem dez mandamentos vão conciliar
Nem todos os ungüentos vão aliviar
Nem todos os quebrantos, toda alquimia
Que nem todos os santos, será que será
O que não tem descanso, nem nunca terá
O que não tem cansaço, nem nunca terá
O que não tem limite

O que será que me dá
Que me queima por dentro, será que me dá
Que me perturba o sono, será que me dá
Que todos os ardores me vêm atiçar
Que todos os tremores me vêm agitar
E todos os suores me vêm encharcar
E todos os meus nervos estão a rogar
E todos os meus órgãos estão a clamar
E uma aflição medonha me faz suplicar
O que não tem vergonha, nem nunca terá
O que não tem governo, nem nunca terá
O que não tem juízo

domingo, 14 de outubro de 2012

De hoje para amanhã

Nós dois, sentados num banco, Lagoa, Rio de Janeiro. Quietos, entre olhares de soslaio e expressões de canto de boca. Final de tarde com um arrebol de cegar-nos em beleza e fascínio. Ao chegarem-me as palavras, comecei a narrar as minhas paixões, as minhas mais bonitas crenças, os meus planos para daqui a dez anos. Ali, na tua companhia, perto do teu cheiro e da tua rara e serena voz. Ali, onde, num forte pulsar de inspiração, pus-me a descrever o sentimento de hoje que fica sempre para amanhã:

- De mais a mais, o meu amor não tem urgências. Ele é feito de fragmentos, de epílogos, de singularidades, com risos soltos e ímpares, dores de peito abarrotado e vontades intermináveis de se fazer transitivo quando junto. Ele é feito de esperas, de guarnições, de passatempos que se apuram por milênios e milênios até chegarem no ponto certo de se consumir. Ele é sem pressa, senhor de todas as horas, feito poema curto e incógnito, em que se lê e relê à falta de afobação e ao excesso de serenidade. E como fruto de toda paciência, molda-se numa exigência peculiar das coisas submersas: conforma-se como líquido à forma em que é posto, sem perder a consistência de um sólido que impõe sua existência à essência de sua constituição. Conjetura o futuro a partir dos vestígios que colhe. Constrói-se lentamente, à medida que se deixa acontecer. Firme, ingênuo e inconsciente. Até chegar à maturidade, em que se faz silente, à beira de tudo o que é pele e sangue e carne e coração. Calado, guarda-se em si pelo instante que julgar condizente, à espera de um dia em que se revigore e saia da armadura, do fundo do armário, da posta que sempre resta à margem das lágrimas de toda espécie. E num eloquente passar de eras, não se deixa decifrar, entre mentiras e retratos, fazendo eco pelas passagens de sabedoria, pelos desvãos das almas poéticas, pelos escaninhos de cartas de palavras antigas. O meu amor é mais ou menos assim: vem, fica, vai e domina o tempo, se faz inteiro quando vivo e se permite, com todas as caras que possui, se diz dele e nada além. E agora, aqui, ele significa o quiçá dos futuros amantes que poderemos ser.

Apertei, então, a tua mão e pensei: ainda bem que nada é pra já.
 
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Canção: Futuros amantes, Chico Buarque
Letra:
Não se afobe, não
Que nada é pra já
O amor não tem pressa
Ele pode esperar em silêncio
Num fundo de armário
Na posta-restante
Milênios, milênios
No ar

E quem sabe, então
O Rio será
Alguma cidade submersa
Os escafandristas virão
Explorar sua casa
Seu quarto, suas coisas
Sua alma, desvãos

Sábios em vão
Tentarão decifrar
O eco de antigas palavras
Fragmentos de cartas, poemas
Mentiras, retratos
Vestígios de estranha civilização

Não se afobe, não
Que nada é pra já
Amores serão sempre amáveis
Futuros amantes, quiçá
Se amarão sem saber
Com o amor que eu um dia
Deixei pra você

sábado, 22 de setembro de 2012

Olhos teus

Estava à mesa do bar, como de costume. Meu copo de cerveja sempre inconstante, num vai e vem de espuma e cevada, companheiro e convidativo. Meu ar de independência a permear o lugar, os pratos escanteados, os talheres postos, o festim do álcool. Eu ali, à espreita da vida, ignorando as mesas vizinhas. Eu, obedecendo a sina que me fora imposta desde cedo, de sair em pensamento, livre, remoçando e cantando. Perdendo, talvez, as vergonhas e as convenções. Despindo-me. Desconstruindo conceitos. Querendo alçar voos mais distantes, indo para longe sem sair do lugar. Revendo as muitas e pequenas dependências passageiras, das que se esvaíam com um simples mudar de dia. Era eu e o sentimento de autosuficiência, incoerente como havia de ser. Eu sem tu e sem mais um punhado de boas lembranças. Eu, digerindo o adeus, cheio de orgulho e parcimônia. Eu, já embriagado, e de acordo com a verdade que vem mesmo diante do orgulho e da razão. Eu, num gerúndio cansativo e persuasivo. Eu, que no silêncio daquela noite, fiquei a procurar os teus olhos. Sim, os teus olhos. Aqueles olhos pequenos que me alcançavam febrilmente e assim repousavam até perder a vitalidade. Eram os teus olhos que me acalmavam, que me guarneciam. Eram eles que diziam aonde ir e quando ficar. Eu os queria sempre por perto, fosse como bússola ou como abrigo. Queria. Os teus olhos atentos, os teus sentidos aguçados. Eu deles havia me tornado subjacente. Viciara-me sem notar. E quando os perdi, tive a súbita certeza de que foi nos teus olhos que eu fiquei. Foi na esperança de provar-te que o meu regozijo, o meu querer viver, não dependia tanto assim da tua presença. Fiquei na ânsia de, mesmo obedecendo a tua escolha, reencontrar-te numa ocasião qualquer, como esta, em que me observarias aboletado em sonhos, bebendo sem motivo qualquer, a despertar a dúvida de ali estar por mera solidão ou por desnecessidade de me fazer acompanhado. Fiquei naquele ponto, do final em diante, em que se guarnece a vontade de se refazer, para tocar a vida aguardando um retorno, uma volta, uma recaída. Um virar de jogo. Um pedido, uma mendicância. Porque por mais que a gente esqueça, a gente não se livra da benevolência do sentimento de provar, seja a quem for, olhando nos olhos, que está tranquilo e que não carece mais de um passado que se traduz naquelas amargas palavras: seja feliz e passe bem.
 
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Canção: Olhos nos olhos, Chico Buarque
Letra:
 
Quando você me deixou, meu bem,
Me disse pra ser feliz e passar bem.
Quis morrer de ciúme, quase enlouqueci,
Mas depois, como era de costume, obedeci.

Quando você me quiser rever
Já vai me encontrar refeita, pode crer.
Olhos nos olhos,
Quero ver o que você faz
Ao sentir que sem você eu passo bem demais

E que venho até remoçando,
Me pego cantando, sem mais, nem por quê.
Tantas águas rolaram,
Quantos homens me amaram
Bem mais e melhor que você.

Quando talvez precisar de mim,
Cê sabe que a casa é sempre sua, venha sim.
Olhos nos olhos,
Quero ver o que você diz.
Quero ver como suporta me ver tão feliz.

domingo, 9 de setembro de 2012

Uma noite, uma atriz

Imagino a pressa com que te foste. Não estava acordado para ver, mas a imagino em cada detalhe. Cada passo, cada movimento brusco e silencioso. Levantaste-te do colchão estendido ao chão em direção ao pequeno banheiro de ladrilhos marrons. Lavaste o rosto e pensaste se melhor não seria um banho para acalentar o suor da noite quente. Mas logo recuaste ao sentir a água fria a te arrepiar os poucos pelos do braço. Vestiste-te, então, quase às avessas, com receio de barulho fazer e, de súbito, despertar-me. Andaste pelo quarto, taciturna, com passos de bailarina, procurando as tuas roupas, os teus vestígios, as tuas marcas. Fizeste questão de tudo recolher, com a frieza do meliante que limpa a cena do crime após tê-lo cometido. Pensaste em muitas coisas simultaneamente, o que te deixou, naquele instante, confusa e insegura, mas não o bastante para declamar o receio de partir. Olhaste para mim e sentiste um misto de dó e de felicidade. Sorriste, naturalmente. Era da tua essência o exercício da distração sem apegos. Era do teu sentimento de liberdade a necessidade de amar e amar em pluralidade. Abriste a porta, num sutil rodar de chaves, e a fechaste com a cautela típica de quem age furtivamente. Desceste as escadas, efusiva, a já não lembrar de mais nada da noite passada. Chegaste ao limiar da calçada, olhaste pro mundo com os olhos enfadados e te puseste a andar em direção ao caos das pessoas e dos carros, até desaparecer no tempo. Atuaste no teu enredo de sempre. Bem diante de mim. Bem às escuras. Sem meus olhos infantis a cuidar dos movimentos, dos teus movimentos. Minha atriz, minha mente. Mais um corpo errante, mais um dos teus amantes. O suplício de uma noite de sexo com poucas palavras. A lembrança que sempre fica, que representa sem muito importar, que faz da imagem a beleza de todas as sensações do momento vivido. Seja ele um filme ou não.
 
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Canção: As atrizes, Chico Buarque
Letra:
Naturalmente
ela sorria
Mas não me dava trela
Trocava a roupa
Na minha frente
E ia bailar sem mais aquela
Escolhia qualquer um
Lançava olhares
Debaixo do meu nariz
Dançava colada
Em novos pares
Com um pé atrás
Com um pé a fim
Surgiram outras
Naturalmente
Sem nem olhar a minha cara
Tomavam banho
Na minha frente
Para sair com outro cara
Porém nunca me importei
Com tais amantes
Os meus olhos infantis
Só cuidavam delas
Corpos errantes
Peitinhos assaz
Bundinhas assim

Com tantos filmes
Na minha mente
É natural que toda atriz
Presentemente represente
Muito para mim

terça-feira, 4 de setembro de 2012

A gota que falta

A você, que não encontro há três dias,

Chegamos à iminência do ponto final feito dois brutamontes: praticamente ateando fogo no circo, quebrando o pau da barraca e desrespeitando os limites do bom senso. Quase baixaria, barraco de final de festa, embriaguez em estado máximo. Chegamos ao ponto onde tudo se finda por não mais se sustentar. Intrigamo-nos em nossas frivolidades, em nossos defeitos de seres errantes, nos desencontros dos nossos anseios. Perdemo-nos no mesmo espaço, numa cegueira degenerativa. Andamos às escuras e agora estamos à beira do abismo, no que parece ser o fim de uma história cheia de estórias e sentimentos e palavras e reticências e continuidades bonitas. Esquecemos o motivo do toque da pele e do entendimento da alma. Nossas vontades, nossas manias, nossos abraços: tudo por um fio. Por descuido do tempo, por falta de memória, por cuidados demais, por atenções de menos, por desinteresse mútuo. Não sei. Não sabemos. Talvez nem queiramos saber. Razão não me falta para dizer que erraste numa sequência estupenda de atos insensatos. Razão não te falta para falar sobre a minha falta de interesse nos teus projetos. (Mas, ora: sequer existe razão!). Aceitemos a nossa mutação e sejamos maduros. Sim, nos comportemos feito gente grande, que dialoga e se expressa civilizadamente. Não é porque nos transformamos num, sendo dois, à sujeição do egoísmo, que agora precisamos perder as estribeiras. Não, não nos matemos, não nos destruamos. Chegou a hora, mais que tardia, de sermos racionais, de sermos acordantes com a verdade dos fatos. E a verdade é que faltou voz, aquela do diálogo, que empreende compreensão; a que agora está rouca, riscada e fanha. Faltou coração, do que pulsa a todo custo, sem medida, sem condição, sem exigência; ele, que agora faz pouco caso, rumando numa vertente distinta, atolando veias de saturação e nervos. Eis que aqui estamos: rogando, clamando por distância, por lados opostos. Tudo numa estreita passarela, num pequeno metro quadrado, num cerco mínimo, feridos e cheios de tudo, no triz da separação. E falta pouco, muito pouco, quase nada, para deixarmos de lado a vontade de se doar ao fim comum. Então, não mais nos enganemos e não nos façamos de rogados, pois qualquer outra desatenção será, sim, a gota d’água, o desfecho da festa, o transbordar incontrolável das tantas e acumuladas mágoas. Ao invés de nos destroçarmos, de nos trucidarmos, de nos ferirmos com as armas sutis da segregação, ponhamos os pratos limpos e à mesa na primeira hora do dia de amanhã. Diferente disso, o meu sangue estancado surtirá efeitos irremediáveis.

Com apreço, eu, sedento por paz.

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Canção: Gota d'água, Chico Buarque
Letra:
Já lhe dei meu corpo
Minha alegria
Já estanquei meu sangue
Quando fervia
Olha a voz que me resta
Olha a veia que salta
Olha a gota que falta
Pro desfecho da festa
Por favor

Deixe em paz meu coração
Que ele é um pote até aqui de mágoa
E qualquer desatenção, faça não
Pode ser a gota d'água

Já lhe dei meu corpo
Minha alegria
Já estanquei meu sangue
Quando fervia
Olha a voz que me resta
Olha a veia que salta
Olha a gota que falta
Pro desfecho da festa
Por favor

Deixe em paz meu coração
Que ele é um pote até aqui de mágoa
E qualquer desatenção, faça não
Pode ser a gota d'água
Pode ser a gota d'água
Pode ser a gota d'água

domingo, 2 de setembro de 2012

Ela, a que faz cinema



Encontramo-nos na esquina da solidão, onde se cruzam duas movimentadas avenidas, repletas de edifícios cor-de-cinza, restaurantes requintados, lojas de luxo e canteiros de obra. Beirando o café de nome francês e o bar da amargura, onde se chora à vontade após cinco ou seis doses de uísque, estava ela, prostrada num canto onde o vento certamente chegava sem parcimônia. Era ela. E era inverno, o que se notava pela palidez dos muitos passantes, apressados e destemidos, e pela frieza dos apáticos sorrisos que sem pudor ali circundavam. Vestida como de costume, em tons escuros, na imponência de sua postura, usava um chapéu negro que de longe se notava, cujas abas escondiam metade de seu rosto redondo, a par de quem veste uma carapuça ao anonimato. Tragava um cigarro com delicadeza, como se calculasse cada movimento de sua mão, num vai-e-vem que me excitava por mera displicência. Era ela. Era aquela mulher de anos atrás, que me fez partir taciturno após muito penar. Era a atriz, a que fazia cinema e me fazia suspirar com um só sorriso. Era falante, graciosa, inteligente e, assim, fingida e astuciosa. Sempre soube envolver-me com cada palavra dita, tocando o meu ponto fraco como quem domina um piano com mestria. Certa vez, soube por onde ir até me despir, sem muito esforço, gozando da habilidade que comumente ostentava diante do sexo oposto, diante de mim. Então respirei, parei algum instante antes de abordá-la, recordando-me de como a conheci, rememorando até o dia do mês em que avistei aquela rosa galante pela primeira vez. Sem dominar as pernas e os movimentos, o meu corpo guiou-me em sua direção, arrastando-me pelo instinto, que não era paixão e nem amor, mas puro desejo. Era certo que me aguardava, centrada no discurso infalível que proferiria. Avistara-me antes mesmo de eu tê-la visto. Tanto que, ao aproximar-me, armou-se toda em feminilidade e girou-se vagarosamente, de modo a ficarmos a um palmo de distância. Abraçou-me com firmeza, em silêncio, e não olhou nos meus olhos. E ignorando o acaso daquele encontro, convidou-me para acompanhá-la num passeio às margens do rio da eternidade, desenhando uma naturalidade que era só dela, feito a cumplicidade repentina dos fumantes. Ofereceu-me o braço esquerdo e pôs-se a andar enquanto narrava o seu cotidiano cheio de sonhos e imperativos. Precisava desabafar, desanuviar o seu lirismo que nunca achava onde desaguar senão nos meus sentidos. Portava-se com segurança, como se no palco estivesse, não se deixando fraquejar em cada oração. Exalava independência, cumpria o seu papel de mulher inatingível. Falava, falava, falava e não me deixava muito espaço para também o fazer. Era um solilóquio belo, intrigante, fajuto. Era o que eu queria ouvir, era a medida certa de um resgate de predileção, a fisgada certeira do meu coração, que de tão vagabundo, acordava sempre só e se deixava levar. Ainda mais com aquela mulher, para mim tão bela, que me soava diferente, que me cegava debilmente a cada raro encontro. Ela, que me fazia uma espécie de bem único, era do tipo que sentia a necessidade de conquista, de atração, de domínio, na frieza de ver a caça se debatendo até a morte. Era uma boa jogadora, insaciável, que se testava a todo instante. Desde o princípio, perdi-me em admiração no modo como se movimentava, de como gesticulava e articulava os sorrisos em bonita simetria com os olhos. Gostava do seu ar de independência, da altivez que inspirava ao falar de si e do mundo a que aspirava. Era incrivelmente feminina no modo de ser, o que me atraía e me fazia contemplá-la pacientemente. Tinha senso de humor e inteligência em medidas geniais, fazia-me descobrir suas fraquezas, sua fragilidade, sua vontade quase infantil de ser menos racional. Deixava-se revelar, abrindo as portas do passado e escancarando os muitos vãos que ali habitavam, naquele coração dividido entre as frivolidades do orgulho e a vontade de ser menos imponente. Guardava em si algo além da beleza sem o saber. E eu... eu me tornava indefeso diante daquela mulher. Desarmava-me de qualquer desconfiança e a ela me entregava, inteiro, sem medo. Naquele dia, mais uma vez acreditei em suas palavras, que me chegavam como promessas de um futuro feliz e cheio de amor, da confiança de mãos dadas e dos 'bom dia' ditos sem custo. Alimentou-me essa ingênua esperança que em mim imperava diante das mulheres, esse desejo de repousar tranquilo no seu colo e dizer coisas bonitas porque sentidas, aquela pueril felicidade de amar e ser amado. Eis que, então, despediu-se com zelo, fazendo juras de um amanhã menos inconstante. E realmente cumpriu, levando-me adiante, aparecendo-me nos dias seguintes com aquele cheiro envolvente: café, alecrim, lavanda e poesia. A fragrância que o vento, aquele que nela sempre chegava com violência, costumava levar para longe. Aí que me ensinou novamente o tempo, que não haveria de ser minha aquela mulher, que jamais seria de alguém. Foi apenas uma fração de contato. Era ela afeto de veraneios, com sua devida intensidade; era estação passageira de frio e calor em conflito; era a personagem principal de alguns dos meus bonitos filmes. E feita pra se ir, deixou-me outra vez, esvaziando-se em lembranças que agora perdem, pouco a pouco, o seu encantamento.

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Canção: Ela faz cinema, Chico Buarque.
Letra:
Quando ela chora
Não sei se é dos olhos para fora
Não sei do que ri
Eu não sei se ela agora
Está fora de si
Ou se é o estilo de uma grande dama
Quando me encara e desata os cabelos
Não sei se ela está mesmo aqui
Quando se joga na minha cama

Ela faz cinema
Ela faz cinema
Ela é a tal
Sei que ela pode ser mil
Mas não existe outra igual

Quando ela mente
Não sei se ela deveras sente
O que mente para mim
Serei eu meramente
Mais um personagem efêmero
Da sua trama
Quando vestida de preto
Dá-me um beijo seco
Prevejo meu fim
E a cada vez que o perdão
Me clama

Ela faz cinema
Ela faz cinema
Ela é demais
Talvez nem me queira bem
Porém faz um bem que ninguém
Me faz

Eu não sei
Se ela sabe o que fez
Quando fez o meu peito
Cantar outra vez
Quando ela jura
Não sei por que Deus ela jura
Que tem coração
e quando o meu coração
Se inflama

Ela faz cinema
Ela faz cinema
Ela é assim
Nunca será de ninguém
Porém eu não sei viver sem
E fim