quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

A ilusão de Carolina

Atirou-se por inteira, sob o palpitar brusco do seu peito, no regozijo da crença de que dispunha de uma nova tela, sobre a qual as tonalidades daquela antiga aquarela voltariam a vibrar. Esboçou alguns traços suaves em torno do branco que ganhava, sorrateiramente, o colorido de sua imaginação e armou-se toda em poesia, rimando as vestes e os cheiros em volta de si, como num jardim bem cuidado. Aceitou a vaidade sob o fundamento da espera, sob a ansiedade da expectativa, sob a vontade de segurança diante do que ainda era incerto. Suspirava com os sinais, mínimos que fossem, de palavras bonitas, de piadas sem graça, de promessas insensatas. Embalou-se, então, em prognósticos, distanciando o seu olhar em qualquer horizonte, sedenta por concretizar os seus sonhos prosaicos. As suas expedições desbravadas resumiam-se às quentes tardes, em que se sentava ao chão e se punha a bordar desenhos infantis em sua pele, chegando a arranhar-se, a criar marcas em seu próprio corpo, tamanha era a intensidade dos seus anseios. E já não se alimentava como antes, o seu apetite era apenas de sentimento. Não importava a poeira acumulada nos cantos, o vento forte que derrubava o jarro de flores, o gato de estimação que morria de fome. Tudo em volta era só verso, numa materialidade intocável. E naquele tempo de esperas e inércia, findou por encontrar a solidão, tão quase sinônima da ilusão. Não havia, pois, mais lugar para ela. Esquecera de si, naquela dança estranha que protagonizava num salão escuro, sem plateia, sem paredes, sem chão. Sentiu-se perdida, mas sem forças para querer fazer o caminho de volta. Seguia como um pássaro preso, sem acaso, em seu abstrato coração. Em seu valor, sem mais razões, recolhera-se ao seu mundo. Cegou-se em si pelo egoísmo, pela irretocável frustração. E teimosa que só ela, mesmo prostrada à janela, nada viu: nem a rosa que nasceu, nem o mundo que sambou, nem a estrela que caiu.
 
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Canção: Carolina, Chico Buarque
Letra:
Carolina
Nos seus olhos fundos
Guarda tanta dor
A dor de todo esse mundo
Eu já lhe expliquei que não vai dar

Seu pranto não vai nada ajudar
Eu já convidei para dançar

É hora, já sei, de aproveitar
Lá fora, amor,
Uma rosa nasceu,
Todo mundo sambou,
Uma estrela caiu
Eu bem que mostrei sorrindo

Pela janela, ói que lindo
Mas Carolina não viu

Carolina,
Nos seus olhos tristes
Guarda tanto amor
O amor que já não existe,
Eu bem que avisei,
vai acabar
De tudo lhe dei para aceitar
Mil versos cantei pra lhe agradar

Agora não sei como explicar
Lá fora, amor
Uma rosa morreu
Uma festa acabou
Nosso barco partiu
Eu bem que mostrei a ela

O tempo passou na janela
Só Carolina não viu

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