A você, que não encontro há três dias,
Chegamos à iminência do ponto final feito dois brutamontes: praticamente ateando fogo no circo, quebrando o pau da barraca e desrespeitando os limites do bom senso. Quase baixaria, barraco de final de festa, embriaguez em estado máximo. Chegamos ao ponto onde tudo se finda por não mais se sustentar. Intrigamo-nos em nossas frivolidades, em nossos defeitos de seres errantes, nos desencontros dos nossos anseios. Perdemo-nos no mesmo espaço, numa cegueira degenerativa. Andamos às escuras e agora estamos à beira do abismo, no que parece ser o fim de uma história cheia de estórias e sentimentos e palavras e reticências e continuidades bonitas. Esquecemos o motivo do toque da pele e do entendimento da alma. Nossas vontades, nossas manias, nossos abraços: tudo por um fio. Por descuido do tempo, por falta de memória, por cuidados demais, por atenções de menos, por desinteresse mútuo. Não sei. Não sabemos. Talvez nem queiramos saber. Razão não me falta para dizer que erraste numa sequência estupenda de atos insensatos. Razão não te falta para falar sobre a minha falta de interesse nos teus projetos. (Mas, ora: sequer existe razão!). Aceitemos a nossa mutação e sejamos maduros. Sim, nos comportemos feito gente grande, que dialoga e se expressa civilizadamente. Não é porque nos transformamos num, sendo dois, à sujeição do egoísmo, que agora precisamos perder as estribeiras. Não, não nos matemos, não nos destruamos. Chegou a hora, mais que tardia, de sermos racionais, de sermos acordantes com a verdade dos fatos. E a verdade é que faltou voz, aquela do diálogo, que empreende compreensão; a que agora está rouca, riscada e fanha. Faltou coração, do que pulsa a todo custo, sem medida, sem condição, sem exigência; ele, que agora faz pouco caso, rumando numa vertente distinta, atolando veias de saturação e nervos. Eis que aqui estamos: rogando, clamando por distância, por lados opostos. Tudo numa estreita passarela, num pequeno metro quadrado, num cerco mínimo, feridos e cheios de tudo, no triz da separação. E falta pouco, muito pouco, quase nada, para deixarmos de lado a vontade de se doar ao fim comum. Então, não mais nos enganemos e não nos façamos de rogados, pois qualquer outra desatenção será, sim, a gota d’água, o desfecho da festa, o transbordar incontrolável das tantas e acumuladas mágoas. Ao invés de nos destroçarmos, de nos trucidarmos, de nos ferirmos com as armas sutis da segregação, ponhamos os pratos limpos e à mesa na primeira hora do dia de amanhã. Diferente disso, o meu sangue estancado surtirá efeitos irremediáveis.
Com apreço, eu, sedento por paz.
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Canção: Gota d'água, Chico Buarque
Letra:
Já lhe dei meu corpo
Minha alegria
Já estanquei meu sangue
Quando fervia
Olha a voz que me resta
Olha a veia que salta
Olha a gota que falta
Pro desfecho da festa
Por favor
Deixe em paz meu coração
Que ele é um pote até aqui de mágoa
E qualquer desatenção, faça não
Pode ser a gota d'água
Já lhe dei meu corpo
Minha alegria
Já estanquei meu sangue
Quando fervia
Olha a voz que me resta
Olha a veia que salta
Olha a gota que falta
Pro desfecho da festa
Por favor
Deixe em paz meu coração
Que ele é um pote até aqui de mágoa
E qualquer desatenção, faça não
Pode ser a gota d'água
Pode ser a gota d'água
Pode ser a gota d'água
Um comentário:
As situações vividas por alguém, delatam as delícias de viver e sobrepõem o cotidiano como um corpo ou uma alma.
Parabéns Daniel por elevar a estima através da leitura que energiza o pensamento.
Nadilson Santos. 05/09/2012
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