domingo, 9 de setembro de 2012

Uma noite, uma atriz

Imagino a pressa com que te foste. Não estava acordado para ver, mas a imagino em cada detalhe. Cada passo, cada movimento brusco e silencioso. Levantaste-te do colchão estendido ao chão em direção ao pequeno banheiro de ladrilhos marrons. Lavaste o rosto e pensaste se melhor não seria um banho para acalentar o suor da noite quente. Mas logo recuaste ao sentir a água fria a te arrepiar os poucos pelos do braço. Vestiste-te, então, quase às avessas, com receio de barulho fazer e, de súbito, despertar-me. Andaste pelo quarto, taciturna, com passos de bailarina, procurando as tuas roupas, os teus vestígios, as tuas marcas. Fizeste questão de tudo recolher, com a frieza do meliante que limpa a cena do crime após tê-lo cometido. Pensaste em muitas coisas simultaneamente, o que te deixou, naquele instante, confusa e insegura, mas não o bastante para declamar o receio de partir. Olhaste para mim e sentiste um misto de dó e de felicidade. Sorriste, naturalmente. Era da tua essência o exercício da distração sem apegos. Era do teu sentimento de liberdade a necessidade de amar e amar em pluralidade. Abriste a porta, num sutil rodar de chaves, e a fechaste com a cautela típica de quem age furtivamente. Desceste as escadas, efusiva, a já não lembrar de mais nada da noite passada. Chegaste ao limiar da calçada, olhaste pro mundo com os olhos enfadados e te puseste a andar em direção ao caos das pessoas e dos carros, até desaparecer no tempo. Atuaste no teu enredo de sempre. Bem diante de mim. Bem às escuras. Sem meus olhos infantis a cuidar dos movimentos, dos teus movimentos. Minha atriz, minha mente. Mais um corpo errante, mais um dos teus amantes. O suplício de uma noite de sexo com poucas palavras. A lembrança que sempre fica, que representa sem muito importar, que faz da imagem a beleza de todas as sensações do momento vivido. Seja ele um filme ou não.
 
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Canção: As atrizes, Chico Buarque
Letra:
Naturalmente
ela sorria
Mas não me dava trela
Trocava a roupa
Na minha frente
E ia bailar sem mais aquela
Escolhia qualquer um
Lançava olhares
Debaixo do meu nariz
Dançava colada
Em novos pares
Com um pé atrás
Com um pé a fim
Surgiram outras
Naturalmente
Sem nem olhar a minha cara
Tomavam banho
Na minha frente
Para sair com outro cara
Porém nunca me importei
Com tais amantes
Os meus olhos infantis
Só cuidavam delas
Corpos errantes
Peitinhos assaz
Bundinhas assim

Com tantos filmes
Na minha mente
É natural que toda atriz
Presentemente represente
Muito para mim

Um comentário:

Michelle disse...

Lindo demais. Cheguei a pensar que era do próprio Chico, mas depois reconheci o desenvolver do texto desse meu poeta.Bjs!